Segunda-feira, Julho 19, 2004

olvidamento

Os constrangimentos do amor são vários, um séquito de sentimentos desordenados que se impõem sem previsão sobre os corpos. 
Não são, de modo algum, um exército burocrático, a se alojar na consciência e tomar-lhe, depois da queda de seu centro, os flancos abandonados...
 
A razão não bate em retirada a perder seu quartel general, seu controle.
É constrangimento irracional.
Nenhuma ordem.
 
É convencimento de cada mônada, de cada pêlo.
Tudo é igualmente possuído, passo a passo, por seus batalhões bárbaros.
Subjuga as células inermes, uma a uma. 
 
Não há nenhum argumento que articule justificações, explicações para uma tal humilhação.
É poder capilar, salivar, glandular.
 
Isso talvez explique o fato do olvidamento ser somente uma liberdade lenta dos membros.
Dos poros, das glândulas. Somente gradual.
Modorrenta desintoxicação. 
 
Sai da consciência o jugo sem que abandone a presença dispersa no corpo.
Logo, há uma certa perda da memória,  perde-se a consciência onipresente do algoz.
Perdem-se, depois, a compulsão, o vício, a doença reificante.
Podem-se até fruir certos encantos que outras mulheres nos reservam.
 
Permanecem, porém, sempre pestilentos outros recônditos da memória.
No abrigo mnemônico da nossa biologia habita sempre ainda o poder velado da invasão.
 
Cicatrizes, odores, sabores, mesmo aqueles mais insípidos.
Os domínios da intimidade.
Os atos secretos, as reações subterrâneas despertadas pelo mais tênue estímulo são capazes de fazer-nos tremer.
Ao pronunciar de uma palavra os ouvidos fazem presentes sentimentos que aparentemente não mais habitavam nossos segredos.
 
Uma presença perene: é esta a verdade.
Apenas o subterfúgio dos ardis que aprendemos a nos impor para enganar-nos é o que resta como enfrentamento a essa perda parcial do domínio sobre nosso próprio corpo.
 
Talvez a cada amor reste um pouco de nós mesmos esquecido. Ao fim, talvez reste nem mesmo qualquer possibilidade de exercício de soberania, e vai-se já a própria consciência.