terça-feira, agosto 24, 2004

Conforto

Ao redor de um muro de pedras de consciência,
Aprisiona-se, em mim, um desmilingüido pedaço de razão...
Uma senhora velha... escarnecida... irreconhecível se comparada ao que se esperaria dela...
...em um estado decaído de puta velha.

Usaram-na para construir todos os muros de que se tem notícia...
todos eles.
Ao fim,
Fizeram com que edificasse seu lúgubre recanto.
E, lá, humildemente, habita,
modorrenta.
De relance olha os espectros de luz que perfuram as paredes,
pelas frestas.
Luz cansada,
fractal.
Penumbra de uma totalidade completamente parcial.

Raquítica, busca consolo,
se move pelo alimento...
Alguma ração que lhe mantenha inerte, porém viva.
pronta a justificar as minhas culpas.

quinta-feira, julho 22, 2004

Teologia do Belo

A beleza de certa forma me atinge de maneira mais pungente que qualquer outra coisa que se nos pode chegar desde o mundo. Não é discursivamente que a apreendo, assepticamente, julgando-a como se fosse determinável: necessitante e necessitado. É aterrorizado que sinto me faltarem os argumentos para categorizá-la. Nada há que faça explicar o que se me passa. Mais. Não há como interceder em meu espírito no sentido de tal ou qual atitude, por ser mais adequada, mais justificável. Não há motivações racionais a serem expostas. Apavoro-me. Cálido, represento-me toda a simplicidade da percepção imediata e absoluta do indescritível.

É uma intuição concentrada, total. Não há como afastá-la, analiticamente, em suas partes e fazê-la mais compreensível. Não há o que retirar da imediatez do choque pasmado de uma percepção que consome a completude dos recursos sensíveis disponíveis. Nenhuma dotação característica que possa ser subsumida num universal frio, numa categoria como altura, massa, qualidade...  Definitivamente não se podem saber de causas ou efeitos. Nenhuma explicação se apresenta razoável...  Foi-se já o transcendental, resta apenas a Teologia, a Religiosidade. É pura violência.

A conseqüência é apenas a divinização. A nomeação, a denotação daquele transbordamento  perceptivo tranforma-se na espontânea manifestação da alma em forma de mito. A contemplação paralisada é a última reação do espírito a quem resta apenas nomear. Chama-se tudo aquilo: paixão.

E se sucede um afastamento. Um necessário desconhecimento. Involuntário e coercitivo desconhecimento. A beleza significará sempre apenas a sua Deidade. No corpo restam as contenções à circulação dos humores da racionalidade: o frio.

Aí reside a distância que se me impõe. Qualquer outra ação seria de extremo perigo. Quais os meios de intervenção segura na seara poderosa da Magia?
 Resta-me apenas a transformação silenciosa. A divinização da paralisia. A frustração se acomoda. A inquietação se esvai na passagem sutil que se empreende entre a intuição destrutiva daquele completo desconhecido à sua condição tranqüila de mito. Só o que há a fazer é seguir, sem que se pronuncie seu nome.

segunda-feira, julho 19, 2004

olvidamento

Os constrangimentos do amor são vários, um séquito de sentimentos desordenados que se impõem sem previsão sobre os corpos. 
Não são, de modo algum, um exército burocrático, a se alojar na consciência e tomar-lhe, depois da queda de seu centro, os flancos abandonados...
 
A razão não bate em retirada a perder seu quartel general, seu controle.
É constrangimento irracional.
Nenhuma ordem.
 
É convencimento de cada mônada, de cada pêlo.
Tudo é igualmente possuído, passo a passo, por seus batalhões bárbaros.
Subjuga as células inermes, uma a uma. 
 
Não há nenhum argumento que articule justificações, explicações para uma tal humilhação.
É poder capilar, salivar, glandular.
 
Isso talvez explique o fato do olvidamento ser somente uma liberdade lenta dos membros.
Dos poros, das glândulas. Somente gradual.
Modorrenta desintoxicação. 
 
Sai da consciência o jugo sem que abandone a presença dispersa no corpo.
Logo, há uma certa perda da memória,  perde-se a consciência onipresente do algoz.
Perdem-se, depois, a compulsão, o vício, a doença reificante.
Podem-se até fruir certos encantos que outras mulheres nos reservam.
 
Permanecem, porém, sempre pestilentos outros recônditos da memória.
No abrigo mnemônico da nossa biologia habita sempre ainda o poder velado da invasão.
 
Cicatrizes, odores, sabores, mesmo aqueles mais insípidos.
Os domínios da intimidade.
Os atos secretos, as reações subterrâneas despertadas pelo mais tênue estímulo são capazes de fazer-nos tremer.
Ao pronunciar de uma palavra os ouvidos fazem presentes sentimentos que aparentemente não mais habitavam nossos segredos.
 
Uma presença perene: é esta a verdade.
Apenas o subterfúgio dos ardis que aprendemos a nos impor para enganar-nos é o que resta como enfrentamento a essa perda parcial do domínio sobre nosso próprio corpo.
 
Talvez a cada amor reste um pouco de nós mesmos esquecido. Ao fim, talvez reste nem mesmo qualquer possibilidade de exercício de soberania, e vai-se já a própria consciência.               

segunda-feira, julho 05, 2004

Itaca

A viagem mítica dos heróis homéricos é a experiência sublimada da origem de nossa existência individual.
Ulisses, depois da Guerra, depois de tanto sofrimento como mero instrumento da Ira dos deuses, empreende uma terrificante viagem. O retorno à Ítaca.
Dos óbices da trajetória se ergue a História. Ela é a afirmação do homem sobre suas pulsões, o sacrifício através do qual se sagra vencedor. É o despregamento de Odisseu de sua origem natural, mimética, com a contenção repressora dos instintos, a negação da natureza incontível em si: a afirmação da Liberdade.
O canto das sereias, as correntes, a angústia pelo sacrifício de sua existência originária, todas as vicissitudes de uma tão pouco jubilosa jornada são o exemplo de como é penoso e desditoso o sacrifício de se tornar soberano de si próprio.
Ítaca é o estímulo ao infinito, à auto-conservação.
É, porém, do mesmo modo, o imperativo que faz trilhar o caminho da repressão. Da negação da vida natural. É a ida e a volta de uma subjetividade escravizada, à sua liberdade e a seu novo/velho cativeiro.
Parece, justamente, que realizamos a viagem de volta. Parece que nossa civilização encontrou o fim de seus dias de viajante. Há já uma reconciliação do prazer com a realidade. Esse reencontro está presente nas nossas vidas totalmente dessublimadas; na realização imediata de Eros; no prazer que é transportado diretamente aos sentidos, desde as genitálias emancipadas. Há sensação de prazer, controlada em seu descontrole, ao vermos filmes no multiplex, ao comermos os molhos prontos para macarrão sabor churrasco, ao subirmos e descermos as escadas da vida social pequenês, ao vivermos a vida pré-fabricada das cidades.
Ítaca foi encontrada. Mas ela estava, então, bastante mudada. Não era Atlântida. Mais parecia Bensalém.
Talvez a própria viagem fosse melhor que a sua chegada.
Chegava-se, simplesmente, à barbárie contemporizada que é nossas vidas.
...só há, agora, nossa condição atual de cogs in a machine, de novos objetos rituais para uma mitologia transmutada em indústria, em cultura de massa; a vida em que a felicidade é encontrada nas caixinhas longa vida dos supermercados, no prazer dessublimado dos biscoitos vitaminados, do café descafeinado, do adoçante dietético.
A liberdade é ainda uma possibilidade, ou fazia apenas parte da busca por tranquilidade? Ítaca é somente a terra da estabilidade? Da medíocre comodidade dos que não negam mais nada daquilo que os cerca?
Essa condição de nova submissão à vontade de deuses exige que se nos levantemos. Exige que voltemos à estrada, que seja empreendida nova jornada.
Cada um tem pungente exigência de liberdade. Mas a vida prenhe de mimetismo parece obnubilar as alternativas.
Não é possível sair. Não há héstia sequer que faça algum espectro chegar à caverna. Algo que não seja parte de alguma luz sepulcral, proveniente dos recônditos profundos em que estão veladas as nossas liberdades desalojadas: nossas inteligências odisséicas.
Nova busca por saída. Nova busca por indeterminação. Sentimos falta de nosso tempo de descobertas. Sentimos falta do prazer indisposto, não pré-dito. Do destino que façamos, através dos erros das imprudências. Queremos ser nossas próprias pitonisas, mas permanecermos ainda ininteligíveis até para nós mesmos. Sentimos a angústia da repressão feliz das pulsões de morte engendradoras da singela irracionalidade que, colhida como flor, explode na poesia.
Ítaca.
Esse não virá a ser espaço de literatura. Nem será espaço de novidades, necessariamente. Não vem a ser, aliás, o espaço de catarses sócio-eróticas. Não será o espaço de negação pura e simples. Nem, talvez, seja mesmo o espaço de qualquer criatividade.
É só impulso.
Violência na fuga.
O erotismo será catártico porque é fuga.
A catarse será somente a fúria de quem permanece preso, mas se desprende, irracionalmente, apenas no texto. Ou ao menos acha que o faz.
Fuga que se presenteia com a coragem de quedar-se, na sua permanência no cativeiro, sempre insatisfeita.
Contenda com os grilhões, apesar da certeza de sua inquebrantável dureza.
Sem estilo, sem sentido.
Fuga de quem permanece.
Somente busca.
Viagem.