Itaca
A viagem mítica dos heróis homéricos é a experiência sublimada da origem de nossa existência individual.
Ulisses, depois da Guerra, depois de tanto sofrimento como mero instrumento da Ira dos deuses, empreende uma terrificante viagem. O retorno à Ítaca.
Dos óbices da trajetória se ergue a História. Ela é a afirmação do homem sobre suas pulsões, o sacrifício através do qual se sagra vencedor. É o despregamento de Odisseu de sua origem natural, mimética, com a contenção repressora dos instintos, a negação da natureza incontível em si: a afirmação da Liberdade.
O canto das sereias, as correntes, a angústia pelo sacrifício de sua existência originária, todas as vicissitudes de uma tão pouco jubilosa jornada são o exemplo de como é penoso e desditoso o sacrifício de se tornar soberano de si próprio.
Ítaca é o estímulo ao infinito, à auto-conservação.
É, porém, do mesmo modo, o imperativo que faz trilhar o caminho da repressão. Da negação da vida natural. É a ida e a volta de uma subjetividade escravizada, à sua liberdade e a seu novo/velho cativeiro.
Parece, justamente, que realizamos a viagem de volta. Parece que nossa civilização encontrou o fim de seus dias de viajante. Há já uma reconciliação do prazer com a realidade. Esse reencontro está presente nas nossas vidas totalmente dessublimadas; na realização imediata de Eros; no prazer que é transportado diretamente aos sentidos, desde as genitálias emancipadas. Há sensação de prazer, controlada em seu descontrole, ao vermos filmes no multiplex, ao comermos os molhos prontos para macarrão sabor churrasco, ao subirmos e descermos as escadas da vida social pequenês, ao vivermos a vida pré-fabricada das cidades.
Ítaca foi encontrada. Mas ela estava, então, bastante mudada. Não era Atlântida. Mais parecia Bensalém.
Talvez a própria viagem fosse melhor que a sua chegada.
Chegava-se, simplesmente, à barbárie contemporizada que é nossas vidas.
...só há, agora, nossa condição atual de cogs in a machine, de novos objetos rituais para uma mitologia transmutada em indústria, em cultura de massa; a vida em que a felicidade é encontrada nas caixinhas longa vida dos supermercados, no prazer dessublimado dos biscoitos vitaminados, do café descafeinado, do adoçante dietético.
A liberdade é ainda uma possibilidade, ou fazia apenas parte da busca por tranquilidade? Ítaca é somente a terra da estabilidade? Da medíocre comodidade dos que não negam mais nada daquilo que os cerca?
Essa condição de nova submissão à vontade de deuses exige que se nos levantemos. Exige que voltemos à estrada, que seja empreendida nova jornada.
Cada um tem pungente exigência de liberdade. Mas a vida prenhe de mimetismo parece obnubilar as alternativas.
Não é possível sair. Não há héstia sequer que faça algum espectro chegar à caverna. Algo que não seja parte de alguma luz sepulcral, proveniente dos recônditos profundos em que estão veladas as nossas liberdades desalojadas: nossas inteligências odisséicas.
Nova busca por saída. Nova busca por indeterminação. Sentimos falta de nosso tempo de descobertas. Sentimos falta do prazer indisposto, não pré-dito. Do destino que façamos, através dos erros das imprudências. Queremos ser nossas próprias pitonisas, mas permanecermos ainda ininteligíveis até para nós mesmos. Sentimos a angústia da repressão feliz das pulsões de morte engendradoras da singela irracionalidade que, colhida como flor, explode na poesia.
Ítaca.
Esse não virá a ser espaço de literatura. Nem será espaço de novidades, necessariamente. Não vem a ser, aliás, o espaço de catarses sócio-eróticas. Não será o espaço de negação pura e simples. Nem, talvez, seja mesmo o espaço de qualquer criatividade.
É só impulso.
Violência na fuga.
O erotismo será catártico porque é fuga.
A catarse será somente a fúria de quem permanece preso, mas se desprende, irracionalmente, apenas no texto. Ou ao menos acha que o faz.
Fuga que se presenteia com a coragem de quedar-se, na sua permanência no cativeiro, sempre insatisfeita.
Contenda com os grilhões, apesar da certeza de sua inquebrantável dureza.
Sem estilo, sem sentido.
Fuga de quem permanece.
Somente busca.
Viagem.
Ulisses, depois da Guerra, depois de tanto sofrimento como mero instrumento da Ira dos deuses, empreende uma terrificante viagem. O retorno à Ítaca.
Dos óbices da trajetória se ergue a História. Ela é a afirmação do homem sobre suas pulsões, o sacrifício através do qual se sagra vencedor. É o despregamento de Odisseu de sua origem natural, mimética, com a contenção repressora dos instintos, a negação da natureza incontível em si: a afirmação da Liberdade.
O canto das sereias, as correntes, a angústia pelo sacrifício de sua existência originária, todas as vicissitudes de uma tão pouco jubilosa jornada são o exemplo de como é penoso e desditoso o sacrifício de se tornar soberano de si próprio.
Ítaca é o estímulo ao infinito, à auto-conservação.
É, porém, do mesmo modo, o imperativo que faz trilhar o caminho da repressão. Da negação da vida natural. É a ida e a volta de uma subjetividade escravizada, à sua liberdade e a seu novo/velho cativeiro.
Parece, justamente, que realizamos a viagem de volta. Parece que nossa civilização encontrou o fim de seus dias de viajante. Há já uma reconciliação do prazer com a realidade. Esse reencontro está presente nas nossas vidas totalmente dessublimadas; na realização imediata de Eros; no prazer que é transportado diretamente aos sentidos, desde as genitálias emancipadas. Há sensação de prazer, controlada em seu descontrole, ao vermos filmes no multiplex, ao comermos os molhos prontos para macarrão sabor churrasco, ao subirmos e descermos as escadas da vida social pequenês, ao vivermos a vida pré-fabricada das cidades.
Ítaca foi encontrada. Mas ela estava, então, bastante mudada. Não era Atlântida. Mais parecia Bensalém.
Talvez a própria viagem fosse melhor que a sua chegada.
Chegava-se, simplesmente, à barbárie contemporizada que é nossas vidas.
...só há, agora, nossa condição atual de cogs in a machine, de novos objetos rituais para uma mitologia transmutada em indústria, em cultura de massa; a vida em que a felicidade é encontrada nas caixinhas longa vida dos supermercados, no prazer dessublimado dos biscoitos vitaminados, do café descafeinado, do adoçante dietético.
A liberdade é ainda uma possibilidade, ou fazia apenas parte da busca por tranquilidade? Ítaca é somente a terra da estabilidade? Da medíocre comodidade dos que não negam mais nada daquilo que os cerca?
Essa condição de nova submissão à vontade de deuses exige que se nos levantemos. Exige que voltemos à estrada, que seja empreendida nova jornada.
Cada um tem pungente exigência de liberdade. Mas a vida prenhe de mimetismo parece obnubilar as alternativas.
Não é possível sair. Não há héstia sequer que faça algum espectro chegar à caverna. Algo que não seja parte de alguma luz sepulcral, proveniente dos recônditos profundos em que estão veladas as nossas liberdades desalojadas: nossas inteligências odisséicas.
Nova busca por saída. Nova busca por indeterminação. Sentimos falta de nosso tempo de descobertas. Sentimos falta do prazer indisposto, não pré-dito. Do destino que façamos, através dos erros das imprudências. Queremos ser nossas próprias pitonisas, mas permanecermos ainda ininteligíveis até para nós mesmos. Sentimos a angústia da repressão feliz das pulsões de morte engendradoras da singela irracionalidade que, colhida como flor, explode na poesia.
Ítaca.
Esse não virá a ser espaço de literatura. Nem será espaço de novidades, necessariamente. Não vem a ser, aliás, o espaço de catarses sócio-eróticas. Não será o espaço de negação pura e simples. Nem, talvez, seja mesmo o espaço de qualquer criatividade.
É só impulso.
Violência na fuga.
O erotismo será catártico porque é fuga.
A catarse será somente a fúria de quem permanece preso, mas se desprende, irracionalmente, apenas no texto. Ou ao menos acha que o faz.
Fuga que se presenteia com a coragem de quedar-se, na sua permanência no cativeiro, sempre insatisfeita.
Contenda com os grilhões, apesar da certeza de sua inquebrantável dureza.
Sem estilo, sem sentido.
Fuga de quem permanece.
Somente busca.
Viagem.

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