Constipação
A retidão intestinal já durava 27 dias. A tia, renomada curandeira da região, foi chamada às pressas à cidade, depois que todos os prontuários médicos e ladainhas se revelaram inofensivos.
“A pobrezinha está horrível... Faz 10 dias que está deitada e mal consegue se mexer. A cada vez que abre a boca, a gente acha que vai entregar a alma. E ainda tem os cheiros. Ninguém agüenta nem chegar perto”, advertia a mãe, enquanto levava a tia pelo braço até o quarto onde estava a enferma.
A porta se abriu e com ela, vieram os odores. Ato contínuo, a tia expirou energicamente para afastar a fedentina e levou a mão às narinas. Uma múmia de cinco mil anos não exalaria tão nefastos fluídos.
Pior que o cheiro expelido pela doente, observou tacitamente a tia, era a mistura dele com as fragrâncias dissipadas pelas comadres para tornar a atmosfera mais suportável. Uns tais de extratos aromáticos de frutas e flores dispostos meticulosamente em vasos espalhados pelo recinto.
De nada adiantavam. Por trás dos arranjos de essências, sempre vencedor na briga travada durante a colisão das partículas olfativas, eis que se impunha, soberano, impregnando cada poro do corpo da velha, o penetrante, indissolúvel e aterrador cheiro de merda.
A tia avançava em direção à sobrinha com o rosto virado para o lado, como se aquilo a pudesse proteger do assédio persistente do fedor. Mandou abrir as janelas para arejar o ambiente, apesar das ressalvas de que a pequena não agüentava a luz do sol.
A sobrinha, antes vistosa no esplendor de sua juventude, ficara irreconhecível com a prolongada constipação. Suava de febre por sob os lençóis que não escondiam sua palidez e magreza, mas denunciavam um estranho e incômodo volume na altura do abdômen.
Seu estado dispensava exame clínico. Era evidente, para a experimentada curandeira, que todos os sintomas se reportavam à exagerada prisão de ventre. Por isso, quando a tia se ateve por mais tempo junto à cabeceira do leito, foi por pura compaixão em ver a lânguidez da sobrinha, e não por qualquer precisão medicinal.
Enxugou a fronte suada da menina e, com um movimento seco, levantou o lençol que cobria-lhe o corpo. Entendeu então a causa do suplício. As entranhas da garota pareciam expostas, em chamas. Por baixo de uma diáfana camada de pele, seu intestino, projetado para fora do corpo, se retorcia em nós que originavam visíveis abscessos e ora se sobrepunham, ora se entrelaçavam, parecendo comprimidos a ponto de romper.
O abdômen da enferna latejava, parecia ter vida, emitia sons assombrosos. As veias, sufocadas, atravessavam os tecidos com dificuldade e o sangue parecia não ser o bastante para irrigar tão árido terreno. Petrificados e rugosos, os excrementos tocavam a superfície do ventre e coloriam de tom plúmbeo a sofrida pele da sobrinha.
É a danação, concluiu a tia. Essa merda vai matar a menina, antecipou em silêncio. Olhou para os lados e viu a família inteira aguardando esperançosa por seu diagnóstico. Na porta e na janela, amontoavam-se parentes e curiosos, igualmente ansiosos, mas mantidos a distância pelo mau cheiro do quarto. Todo o silêncio em torno da doente clamava por uma palavra de salvação.
Tem que operar, pronunciou calmamente a tia, ou torcer pra que a morte venha logo. Uma onda de murmúrios acompanhou a observação, mas foi imediatamente cortada pelas novas palavras da curandeira. Talvez tenha algo que eu possa fazer por ela. Naturalmente, estava pensando no velho lambedor com propriedades laxantes que aprendera há alguns anos.
Retirou-se do quarto com a mãe da criança e poucas horas depois voltou com a infusão ainda borbulhante. O segredo, não revelado nem à própria irmã que lhe serviu de ajudante, era a mínima dosagem de casca de ameixa.
Serviu apenas duas colheradas à sobrinha. Passaram-se alguns minutos e a pequena começou a ter contrações abdominais. Logo, fizeram-se os gases. Os altiloqüentes flatos explodiam como trovoadas, sacudindo a frágil adolescente e sua cama.
Em pouco tempo, todos haviam fugido do quarto por não agüentar o violento cheiro das ventosidades, restando apenas a tia e a mãe.A curandeira então lhe administrou mais duas colheres do elixir. E agradeceu aos céus por todos terem se retirado, pois o que se veria a seguir não merecia registro nem nas zonas mais obscuras da memória da cristandade.
Tivesse a infeliz parido mil demônios revoltos, não teria sentido tamanha dor. As fezes eram expurgadas como brasas ardentes que dilaceravam as carnes da desaventurada criatura. Com apenas 14 anos, ela aturava o que nem todas as meretrizes do mundo sentiram nas mais violentas curras.
A criança se debatia exasperadamente e apertava os lençóis com as mãos, olhando para suas mãe e tia como a condená-las por privá-la da morte indolente que se anunciava, substituindo-a por aquele calvário atroz.
Não tardou e irromperam as hemorragias. Todos os vasos próximos à região da massa fecal haviam estourado. A cama da criança já se tornara uma insalubre poça de merda, sangue e suor.
Tão grande era o poder do laxante que, dois dias depois, já trancado no caixão e enterrado a 12 palmos de terra do chão, o corpo sem vida da cagadeira endemoniada, como ficou conhecida a criança, continuava a soltar pelo ânus um escorrimento pastoso e escuro, que continha resquícios de sangue e fezes, acrescidos das primeiras partículas do corpo já em decomposição.
“A pobrezinha está horrível... Faz 10 dias que está deitada e mal consegue se mexer. A cada vez que abre a boca, a gente acha que vai entregar a alma. E ainda tem os cheiros. Ninguém agüenta nem chegar perto”, advertia a mãe, enquanto levava a tia pelo braço até o quarto onde estava a enferma.
A porta se abriu e com ela, vieram os odores. Ato contínuo, a tia expirou energicamente para afastar a fedentina e levou a mão às narinas. Uma múmia de cinco mil anos não exalaria tão nefastos fluídos.
Pior que o cheiro expelido pela doente, observou tacitamente a tia, era a mistura dele com as fragrâncias dissipadas pelas comadres para tornar a atmosfera mais suportável. Uns tais de extratos aromáticos de frutas e flores dispostos meticulosamente em vasos espalhados pelo recinto.
De nada adiantavam. Por trás dos arranjos de essências, sempre vencedor na briga travada durante a colisão das partículas olfativas, eis que se impunha, soberano, impregnando cada poro do corpo da velha, o penetrante, indissolúvel e aterrador cheiro de merda.
A tia avançava em direção à sobrinha com o rosto virado para o lado, como se aquilo a pudesse proteger do assédio persistente do fedor. Mandou abrir as janelas para arejar o ambiente, apesar das ressalvas de que a pequena não agüentava a luz do sol.
A sobrinha, antes vistosa no esplendor de sua juventude, ficara irreconhecível com a prolongada constipação. Suava de febre por sob os lençóis que não escondiam sua palidez e magreza, mas denunciavam um estranho e incômodo volume na altura do abdômen.
Seu estado dispensava exame clínico. Era evidente, para a experimentada curandeira, que todos os sintomas se reportavam à exagerada prisão de ventre. Por isso, quando a tia se ateve por mais tempo junto à cabeceira do leito, foi por pura compaixão em ver a lânguidez da sobrinha, e não por qualquer precisão medicinal.
Enxugou a fronte suada da menina e, com um movimento seco, levantou o lençol que cobria-lhe o corpo. Entendeu então a causa do suplício. As entranhas da garota pareciam expostas, em chamas. Por baixo de uma diáfana camada de pele, seu intestino, projetado para fora do corpo, se retorcia em nós que originavam visíveis abscessos e ora se sobrepunham, ora se entrelaçavam, parecendo comprimidos a ponto de romper.
O abdômen da enferna latejava, parecia ter vida, emitia sons assombrosos. As veias, sufocadas, atravessavam os tecidos com dificuldade e o sangue parecia não ser o bastante para irrigar tão árido terreno. Petrificados e rugosos, os excrementos tocavam a superfície do ventre e coloriam de tom plúmbeo a sofrida pele da sobrinha.
É a danação, concluiu a tia. Essa merda vai matar a menina, antecipou em silêncio. Olhou para os lados e viu a família inteira aguardando esperançosa por seu diagnóstico. Na porta e na janela, amontoavam-se parentes e curiosos, igualmente ansiosos, mas mantidos a distância pelo mau cheiro do quarto. Todo o silêncio em torno da doente clamava por uma palavra de salvação.
Tem que operar, pronunciou calmamente a tia, ou torcer pra que a morte venha logo. Uma onda de murmúrios acompanhou a observação, mas foi imediatamente cortada pelas novas palavras da curandeira. Talvez tenha algo que eu possa fazer por ela. Naturalmente, estava pensando no velho lambedor com propriedades laxantes que aprendera há alguns anos.
Retirou-se do quarto com a mãe da criança e poucas horas depois voltou com a infusão ainda borbulhante. O segredo, não revelado nem à própria irmã que lhe serviu de ajudante, era a mínima dosagem de casca de ameixa.
Serviu apenas duas colheradas à sobrinha. Passaram-se alguns minutos e a pequena começou a ter contrações abdominais. Logo, fizeram-se os gases. Os altiloqüentes flatos explodiam como trovoadas, sacudindo a frágil adolescente e sua cama.
Em pouco tempo, todos haviam fugido do quarto por não agüentar o violento cheiro das ventosidades, restando apenas a tia e a mãe.A curandeira então lhe administrou mais duas colheres do elixir. E agradeceu aos céus por todos terem se retirado, pois o que se veria a seguir não merecia registro nem nas zonas mais obscuras da memória da cristandade.
Tivesse a infeliz parido mil demônios revoltos, não teria sentido tamanha dor. As fezes eram expurgadas como brasas ardentes que dilaceravam as carnes da desaventurada criatura. Com apenas 14 anos, ela aturava o que nem todas as meretrizes do mundo sentiram nas mais violentas curras.
A criança se debatia exasperadamente e apertava os lençóis com as mãos, olhando para suas mãe e tia como a condená-las por privá-la da morte indolente que se anunciava, substituindo-a por aquele calvário atroz.
Não tardou e irromperam as hemorragias. Todos os vasos próximos à região da massa fecal haviam estourado. A cama da criança já se tornara uma insalubre poça de merda, sangue e suor.
Tão grande era o poder do laxante que, dois dias depois, já trancado no caixão e enterrado a 12 palmos de terra do chão, o corpo sem vida da cagadeira endemoniada, como ficou conhecida a criança, continuava a soltar pelo ânus um escorrimento pastoso e escuro, que continha resquícios de sangue e fezes, acrescidos das primeiras partículas do corpo já em decomposição.

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